Discursos Proferidos

Visita de Shimon Peres ao Brasil
 

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados, com a visita de ontem, do presidente Shimon Peres, de Israel, o Brasil entra no palco das discussões diplomáticas sobre os divergentes interesses de países do Oriente Médio.

Após discursar em sessão no Congresso, Shimon Peres elogiou a postura brasileira de combate ao terrorismo, destacando que "Israel não é inimigo dos povos muçulmanos, nem dos iranianos", com quem acredita que seu país retomará a amizade.

Essa afirmação, feita de forma cortês e educada, serviu para amenizar o constrangimento do Brasil diante da possível visita do presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, que será recebido pelo presidente Lula daqui a duas semanas, para tratar de assuntos bilaterais envolvendo o comércio, investimentos e acordos de cooperação entre os dois países.

A visita desses dois governantes de peso do Oriente Médio, do ponto de vista diplomático, Sr. Presidente, colocam o Brasil no centro de um cabo de guerra pela influência regional, já que ambos os chefes de Estado buscam obter o apoio brasileiro aos seus divergentes interesses políticos.

Embora de forma amena, o presidente Shimon Peres não poupou críticas ao seu colega de Oriente Médio, ao afirmar que historicamente o povo iraniano nunca foi inimigo do povo israelense, mas que não pode ignorar o fato de que o atual governo do Irã vem produzindo armas nucleares com o firme propósito de destruir Israel, desobedecendo Tratados da ONU - Organização das Nações Unidas, além de ajudar o grupo radical palestino Hamas a maltratar a Palestina.

Ressaltou em sua fala na tribuna desta Casa que Israel está "pronta a fazer concessões difíceis e dolorosas" aos palestinos, pedindo ao presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmud Abbas, que volte às negociações de paz.

Abbas, Sras. e Srs. Deputados, pode ser o terceiro líder de peso do Oriente Médio a visitar o Brasil ainda esse mês, possivelmente na segunda quinzena, embora o anúncio não tenha sido até o momento oficializado pelo Itamaraty.

Em conversa mantida pela manhã, com o presidente israelense, segundo divulgado por determinado órgão da imprensa, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, estaria negociando um acordo setorial – com garantia de segredo, confirmando, no entanto, que o Brasil gostaria de desenvolver sistemas de eletrônica aplicada à aviação em parceria com empresas israelenses, assunto este conduzido pelo Ministério das Relações Exteriores.

No encontro, Peres afirmou que o Brasil "pode ser grande tanto em ciência quanto em indústria", aproveitando para convidar o ministro Jobim para visitar Israel e examinar, de perto, os projetos a serem desenvolvidos através de iniciativa conjunta.

Nesse contexto, o presidente Lula leva uma grande vantagem sobre os demais países latinos, pois em seus quase sete anos de governo tem mantido um diversificado círculo de relacionamentos ao redor do mundo, indo desde a extrema esquerda, de Fidel e Raúl Castro, de Cuba, ao lado diametralmente oposto, de George W. Bush, ex-presidente dos Estados Unidos.

Por essa razão, Sr. Presidente, tem se tornado um interlocutor cada vez mais respeitado por líderes de outros povos, que vêem na figura carismática de Lula um importante passo para uma aproximação exitosa com lados opostos e antagônicos.

Assim, é oportuna a intermediação brasileira, por meio da qual pode o Brasil vir a ter uma presença construtiva no processo de paz do Oriente Médio, galgando espaço no cenário internacional para participação mais efetiva em temas voltados para a paz mundial, como bem avaliou Ray Walser, do grupo de análise Heritage Foundation, com sede na capital americana, Washington.
Foi essa, aliás, a tônica do discurso do presidente israelense, que destacou o relevante papel que o Brasil pode prestar na região.

É inegável, nobres Deputados, que após o avanço político dos extremistas palestinos e da ultradireita israelense, nos últimos anos, instalou-se na região uma suposta calmaria que pode anteceder novas e sérias tempestades, já que a chance imediata de reinício das negociações entre Israel e a Autoridade Palestina pretendida pelo presidente Barack Obama arrefeceu após a secretária de Estado, Hillary Clinton, apoiar ostensivamente a política provocadora e expansionista do premiê Benyamin Netanyahu, que representa o mais completo retrocesso na posição de Israel em relação a seus vizinhos.

Os assentamentos em terras palestinas voltaram com força na Cisjordânia e o governo israelense simplesmente ignorou que seu fim era uma das condições para negociações de boa-fé.

Sem a mediação americana, o jogo político regional beneficiou o acirramento dos ânimos, culminando com a sangrenta invasão da Faixa de Gaza que, embora reduzindo momentaneamente o poder militar do Hamas, não abalou sua força política, eis que vencedor das últimas eleições frente ao Fatah, esteio da Autoridade Palestina em uma luta sem precedentes.

Portanto, Sr. Presidente, é imensurável o desafio que se lança sobre o Brasil, notadamente a partir desses encontros agendados por importantes lideranças do Oriente Médio, para cujo sucesso já foi dado o primeiro passo pelo próprio presidente Shimon Peres, ao afirmar que "Israel está pronto a fazer concessões difíceis e dolorosas aos palestinos", admitindo que o Brasil reúne plenas condições de assumir posição de vanguarda não apenas no âmbito regional como, sobretudo, no cenário internacional.

Desejo, pois, à diplomacia brasileira, que tem se mostrado segura e independente, não permitindo a intervenção de outros países em nossa política interna, pleno sucesso nessa empreitada que ora se avizinha.

Muito Obrigado.